Desempenho dos índices brasileiros em períodos de afrouxamento monetário
Por Suelen Leal
A taxa básica de juros (Selic) é um dos principais vetores de precificação dos ativos financeiros no Brasil. Suas oscilações influenciam diretamente o custo de capital das empresas, o apetite ao risco dos investidores e a atratividade relativa entre renda fixa e variável. Ao longo das últimas duas décadas, o país passou por diversos ciclos de afrouxamento monetário, nos quais a redução da Selic estimulou movimentos significativos nos mercados acionário e de crédito.
Neste estudo, a Economatica analisou o comportamento dos principais índices de renda variável durante seis ciclos de queda dos juros observados desde 2003, destacando quais segmentos e setores apresentaram melhor desempenho relativo em cada período.
Os ciclos de queda da Selic
Conforme ilustrado no gráfico abaixo, entre 2003 e 2025 foram identificados seis grandes ciclos de redução da taxa Selic, cada um refletindo diferentes contextos econômicos e políticas monetárias adotadas pelo Banco Central.
Ciclo 1: agosto/05 a setembro/07 (2 anos aproximadamente)
Ciclo 2: dezembro/08 a julho/09 (8 meses)
Ciclo 3: julho/11 a outubro/12 (1 ano aproximadamente)
Ciclo 4: setembro/16 a março/18 (1 ano e meio aproximadamente)
Ciclo 5: junho/19 a agosto/2020 (1 ano aproximadamente)
Ciclo 6: junho/23 a maio/24 (1 ano)
Cada ciclo teve duração, intensidade e cenário macroeconômico próprios, variando desde momentos de forte expansão econômica até períodos de recessão e crise internacional.
Evolução por ciclo de juros
A seguir, são apresentados os gráficos comparativos da variação percentual da Selic over mensal partindo de uma base 100 para demonstrar o % de variação da taxa ao longo dos meses observados e da performance relativa dos índices de renda variável que apresentaram os maiores retornos em cada ciclo:
1º Ciclo (agosto/2005 – setembro/2007)
O primeiro ciclo de queda da Selic, de 19,75% para 11,25%, ocorreu em um ambiente de:
Expansão econômica e aumento do crédito interno;
Forte crescimento dos lucros corporativos;
Entrada consistente de capital estrangeiro na bolsa;
Aumento da confiança dos investidores após o período de ajuste fiscal do início dos anos 2000.
Ou seja, tratava-se de um ciclo de afrouxamento monetário em meio a um ambiente de crescimento — cenário bastante favorável à valorização dos ativos de risco.
Comportamento dos índices:
Todos os índices mostraram tendência positiva e consistente de alta, com aceleração a partir do segundo semestre de 2006, quando a Selic já acumulava cortes significativos.
O destaque absoluto foi o Índice Financeiro (IFNC), que apresentou a maior valorização acumulada, superando 200%, impulsionado pela expansão de crédito, lucros recordes de bancos e o avanço das ações do setor financeiro.
O Índice de Governança (IGC) e o Índice Tag Along (ITAG) também tiveram forte desempenho, refletindo a valorização de empresas com melhores práticas de governança e direitos de acionistas minoritários — um tema em alta na época com o fortalecimento do Novo Mercado.
O Índice Industrial e o Setor Elétrico apresentaram ganhos expressivos, beneficiados pela retomada da atividade e pela queda no custo de capital.
O Ibovespa, embora tenha acompanhado a tendência positiva, cresceu menos do que índices mais segmentados, mostrando que os ganhos estavam concentrados em setores específicos.
2º Ciclo (dezembro/2008 – julho/2009)
Esse foi um dos períodos mais emblemáticos do mercado, logo após a crise financeira global de 2008, e o comportamento dos índices ilustra com clareza a reação dos diferentes segmentos da bolsa à reversão da política monetária.
O Banco Central iniciou a redução da taxa Selic de 13,75% para 8,75% em um cenário de profunda contração global.
A crise do subprime e a quebra do Lehman Brothers haviam provocado forte retração nos preços dos ativos e saída de capital estrangeiro.
A resposta da política monetária — cortes rápidos na taxa de juros e estímulos fiscais — teve como objetivo recompor a liquidez e restabelecer a confiança no sistema financeiro e nas empresas.
O gráfico mostra que, a partir de dezembro de 2008, há um ponto de inflexão, com os índices começando a reagir gradualmente à queda dos juros.
Alguns pontos de destaque:
O Índice Imobiliário (IMOB) teve o melhor desempenho do ciclo, superando 190% de valorização acumulada, refletindo o forte reaquecimento do setor da construção e o acesso mais fácil ao crédito habitacional via programas públicos (como o “Minha Casa, Minha Vida”, lançado em 2009).
O Índice de Materiais Básicos (IMAT) também apresentou recuperação expressiva.
O Índice de Governança (IGC) e o Índice Financeiro (IFNC) também acompanharam a tendência de alta, mas de forma mais moderada.
O Ibovespa, Ibrx50 e Industrial seguiram o movimento geral, porém com menor inclinação.
3º Ciclo (julho/2011 – outubro/2012)
Entre junho de 2011 e outubro de 2012, o Banco Central reduziu a Selic de 12,50% para 7,25%, em um movimento rápido e profundo.
O cenário global ainda sentia os efeitos da crise da dívida soberana europeia e do pós-2008, enquanto internamente o Brasil enfrentava queda na produtividade, inflação persistente e desaceleração do PIB.
Diferentemente dos ciclos anteriores, o corte da Selic foi mais preventivo e menos expansionista, o que explica a reação mais contida dos índices de renda variável.
O gráfico mostra que todos os índices iniciam o período em leve queda até meados de setembro de 2011, refletindo o pessimismo global. A partir de outubro, há uma recuperação gradual, mas sem aceleração expressiva, e com uma maior dispersão entre os índices no decorrer do ciclo.
Os destaques são:
BDRX (Índice de BDRs) foi o grande vencedor do ciclo, apresentando alta de cerca de 50%. → Esse desempenho está associado à valorização do dólar e ao forte avanço das bolsas internacionais, especialmente dos EUA, que tiveram política monetária ultra expansionista no mesmo período.
Índice de Dividendos (IDIV) e Industrial ficaram entre os intermediários, mostrando desempenho consistente, mas sem retornos exuberantes — um reflexo da busca por empresas mais previsíveis e defensivas.
Setores domésticos, como o Small Cap, apresentaram os retornos mais tímidos do ciclo.
4º Ciclo (setembro/2016 – março/2018)
Entre agosto de 2016 e março de 2018, o Banco Central reduziu a Selic de 14,25% para 6,50%, iniciando um dos ciclos mais longos e previsíveis de afrouxamento monetário da história.
O movimento veio após uma recessão profunda e foi sustentado por:
queda acentuada da inflação,
recuperação gradual da confiança,
ajuste fiscal parcial, e
melhora no cenário global, com retomada das commodities e crescimento mundial sincronizado.
Esse conjunto criou um ambiente propício para a reprecificação dos ativos de risco, com destaque para setores exportadores e intensivos em capital.
O gráfico mostra um movimento coordenado de valorização dos principais índices de ações, com destaque claro para setores cíclicos e industriais.
IMAT (Materiais Básicos) foi o grande vencedor do ciclo, apresentando a maior valorização acumulada entre todos os índices. Esse desempenho reflete a recuperação das commodities metálicas e minerais, impulsionada pela demanda chinesa e pela recuperação da produção global.
Industrial também teve forte alta, acompanhando o otimismo com a retomada econômica e os primeiros sinais de aumento da produção e do consumo interno.
Small Cap apresentou boa performance, refletindo o retorno do apetite ao risco e a reprecificação de empresas menores, mais sensíveis à queda dos juros.
Índice de Dividendos (IDIV) e Ifinanceiro mantiveram ganhos consistentes, mas em ritmo mais moderado.
BDRX, por outro lado, ficou entre os menos expressivos, já que o real se manteve relativamente estável e o mercado americano teve menor correlação positiva com a bolsa brasileira nesse ciclo.
5º Ciclo (junho/2019 – agosto/2020)
Esse ciclo foi atípico e altamente influenciado por eventos externos e choques de incerteza:
Início: ambiente de otimismo moderado, com reformas estruturais (como a da Previdência) e inflação controlada;
Meados do ciclo: choque global da pandemia de COVID-19 (mar/2020), que trouxe forte aversão ao risco e desvalorização dos ativos;
Fim do ciclo: recuperação parcial impulsionada por estímulos fiscais e monetários e pela retomada das commodities.
Foi um período em que a política monetária expansionista encontrou restrições externas severas, o que explica o comportamento mais volátil e desigual entre os índices.
Comportamento dos índices:
BDRX (BDRs) foi o grande destaque do ciclo, apresentando valorização acentuada especialmente após o choque da pandemia, impulsionado pela forte alta das bolsas internacionais, valorização do dólar e entrada de investidores pessoa física em ativos globais.
IMAT (Materiais Básicos) mostrou resiliência e recuperação consistente, refletindo a retomada do ciclo de commodities e a demanda global por minério de ferro, aço e papel e celulose.
Small Cap e Industrial também reagiram bem após a fase mais crítica da pandemia, beneficiados pela queda agressiva dos juros, que reduziu o custo de capital e favoreceu empresas domésticas.
Financeiro (IFNC) teve desempenho mais contido, pressionado pela queda das margens financeiras em um ambiente de juros reais próximos de zero e pelo aumento de inadimplência temporária.
Ibovespa e IBrx50 acompanharam a tendência geral de recuperação, mas com volatilidade acentuada, refletindo o peso dos grandes bancos e empresas de commodities na composição.
6º Ciclo (junho/2023 – maio/2024)
O último ciclo mostra comportamento mais disperso, com destaque para Bdrx e Índice de Dividendos, em um ambiente de cautela e juros ainda elevados em termos reais.
A Selic caiu de 13,75% para 10,50%, com cortes graduais de 0,50 p.p. até março/24 e 0,25 p.p. em maio/24.
O ambiente econômico ainda apresentava inflação controlada, mas atividade fraca e juros reais elevados, o que limitou o ímpeto do mercado.
No exterior, os juros nos EUA permaneceram altos, o que manteve o dólar forte e inibiu fluxos estrangeiros para a bolsa brasileira.
Esses fatores explicam por que o movimento de valorização dos índices de ações foi mais moderado e heterogêneo do que em ciclos anteriores.
Comportamento dos índices:
BDRX foi novamente um dos destaques positivos, sustentado pela valorização das bolsas americanas e pela resiliência do dólar, que favoreceu os BDRs de empresas globais.
IMAT (Materiais Básicos) apresentou alta expressiva a partir de março/2024, refletindo o movimento de recuperação das commodities, especialmente minério de ferro e petróleo, e a expectativa de estímulos na China.
Índice de Dividendos (IDIV) manteve comportamento estável, mas positivo, com empresas defensivas e pagadoras de proventos possivelmente se beneficiando de juros ainda elevados.
Índices amplos (Ibovespa, IBrx50 e IBrx Brasil) mostraram desempenho intermediário, com ganhos limitados pelo peso do setor financeiro.
Setores domésticos como Small Cap, Industrial e Ifinanceiro ficaram para trás, com quedas mais acentuadas no início de 2024, reflexo da atividade fraca, crédito restrito e incerteza sobre política fiscal e juros futuros.
Destaques de rentabilidade nos ciclos
A tabela a seguir apresenta o ranking dos índices de renda variável com maior rentabilidade acumulada em cada ciclo de queda da Selic.
Os resultados mostram que, embora o comportamento varie conforme o contexto, alguns padrões se repetem:
Índices de setores cíclicos, como Industrial, Ifinanceiro e Small Caps, tendem a se destacar nas primeiras fases de queda de juros.
Índices de dividendos e de materiais básicos apresentam desempenho mais forte em ciclos longos ou de recuperação econômica.
O índice Imat Básicos foi um dos mais recorrentes entre os Top 3, com rentabilidade média de 74% nos ciclos em que figurou entre os líderes.
O Índice Financeiro (IFNC) destacou-se pela alta recorrência entre os dez maiores retornos observados nos ciclos de queda da taxa Selic, além de ter apresentado a maior média de rentabilidade no conjunto das janelas analisadas.
Considerações finais
A análise histórica revela que a resposta dos índices de renda variável à queda da Selic não é uniforme, mas segue algumas tendências recorrentes:
Setores financeiros e industriais tendem a liderar nas fases iniciais de corte de juros.
Índices de commodities e dividendos se beneficiam em ciclos mais longos ou de recuperação econômica global.
Small Caps costumam reagir com maior volatilidade, mas também apresentam ganhos expressivos em ambientes de estímulo monetário.
Os dados históricos indicam que os períodos de flexibilização monetária representam oportunidades relevantes de reprecificação dos ativos de risco, especialmente para investidores atentos aos setores mais sensíveis à taxa de juros.
Anexos
Tabela completa da performance de todos os índices observados ao longo dos 6 ciclos de queda de juros:
Esse estudo foi elaborado com a base de dados e o ferramental da Economatica, uma plataforma reconhecida pela sua confiabilidade e abrangência no mercado financeiro. Com acesso a séries históricas, composições de carteira, indicadores de risco e retorno, entre outros dados cruciais, a Economatica possibilita uma análise aprofundada e precisa.
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